765 - JOSÉ NUNO AZEVEDO

Apesar da passagem pelas escolas do FC Porto, a oportunidade para jogar na equipa principal “Azul e Branca” nunca surgiria. Ainda assim, o sonho de dar continuidade à sua carreira de futebolista era grande e, nesse sentido, União de Lamas, Famalicão e Gil Vicente seriam os emblemas que dariam sustento a essa vontade.
Já depois de ter acompanhado o técnico Rodolfo Reis na viagem de Vila Nova de Famalicão até Barcelos, José Nuno Azevedo finalmente chega à 1ª divisão (1990/91). Aliás, a estreia no nosso maior escalão não seria apenas para o atleta. Também a equipa, comandada pelo já referido treinador, conseguiria nessa temporada de 1990/91 sua primeira participação no patamar máximo do futebol português.
Nesta senda de sucessos, e ao afirmar-se como uma das maiores promessas a jogar na sua posição, o lateral-direito é convocado à Selecção Nacional s-21. Contudo, não só na Federação Portuguesa de Futebol começariam a reparar no seu potencial. Também de outros clubes chegam sinais de interesse. Nisto, o Sporting de Braga adianta-se na disputa e vence o concurso pelo defesa.
José Nuno Azevedo chegaria ao Estádio 1º de Maio no Verão de 1992. Todavia, e numa altura em que os bracarenses teimavam em manter-se pelos lugares do meio da tabela, os sucessos ainda escasseavam. Ainda assim, e ao lado de atletas como Artur Jorge, Barroso, Quim, Toni, Karoglan, Sérgio e tantos outros, o defesa oferece o seu contributo para que o clube comece a mudar de paradigma. Mostrando sempre uma regularidade exibicional de excepção, a força que o atleta dava ao conjunto era a imagem daquilo que os minhotos perseguiam. Ora, a prova que o Sporting de Braga almejava muito mais, apareceria já em meados de 90. Na segunda metade dessa década, “Os Guerreiros” voltam às posições cimeiras do Campeonato Nacional e às competições europeias. Nessa caminhada, a temporada de 1997/98 acabaria por transformar-se numa roda-viva. O clube conseguiria alcançar a 3ª ronda da Taça UEFA e, num encontro perdido frente ao FC Porto, disputaria a final da Taça de Portugal.
Os 11 anos a envergar as cores do Sporting de Braga, e a braçadeira de capitão, fariam dele um dos atletas mais estimados pelos adeptos do emblema da “Cidade dos Arcebispos”. Claro que, muito mais do que este número, foram as 13 temporadas consecutivas e as quase 350 partidas disputadas na 1ª divisão, que fizeram dele um dos históricos do futebol português.
Nas tarefas de técnico, provavelmente com menos destaque do que nos tempos de futebolista, o antigo defesa tem também conquistado o seu espaço. Tendo passagens pelos juniores e, como adjunto, pela equipa principal do Sporting de Braga, o seu currículo tem sido feito, maioritariamente, nos escalões secundários. GD Prado, Leixões (também como adjunto), Vilaverdense e Oriental, foram as equipas orientadas pelo ex-jogador. Hoje em dia (2016/17), conciliando a função de comentador na Rádio Renascença, José Nuno Azevedo é o treinador da equipa “b” do Gondomar.

764 - GODINHO

Foi com 9 anos de idade que chegou às escolas do Belenenses. Sempre muito elogiado, Godinho acabaria por fazer todo o percurso formativo com os da “Cruz de Cristo”. Já na temporada de 1963/64 é promovido à categoria principal, conseguindo, rapidamente, transformar-se num dos grandes craques da equipa.
Podendo posicionar-se a extremo ou no meio-campo, era no lado esquerdo do terreno de jogo que a sua habilidade mais se destacava. A sua qualidade era de tal forma evidente que, logo na primeira época com os seniores, Fernando Vaz faz dele uma grande aposta. Já após duas temporadas de grande categoria, durante as quais jogaria com grande regularidade, a sua evolução haveria de sofrer um pequeno retrocesso. Depois desse início fulgurante, Godinho começa a perder algum espaço na equipa. Deixa a titularidade e, nas épocas que se seguiriam, vê a sua importância diminuir. Só na temporada de 1968/69 é que volta a recuperar o estatuto desses primeiros tempos como profissional. Todavia, daí em diante, a sua preponderância torna-se inquestionável e, tirando raras excepções, passa a ser um dos esteios do Belenenses.
Nos anos vindouros, as suas exibições contribuiriam para épocas memoráveis. No caminho que levaria o Belenenses ao 2º lugar (1972/73), até às campanhas europeias, Godinho cimentar-se-ia como um dos pilares da equipa. Ainda assim, e não menosprezando o valor que sempre mostrou, o seu percurso futebolístico haveria de ter uma pequena pecha. Sem grandes troféus a abrilhantar o currículo, o esquerdino venceria apenas 2 Taças de Honra da Associação de Futebol de Lisboa (1969/70; 1975/76). Contudo, e mesmo não tendo um palmarés muito vistoso, o seu desempenho seria suficiente para que merecesse uma chamada à selecção nacional. Ora, e após ter jogado pelos juniores de Portugal, o extremo acabaria convocado na campanha de apuramento para o Euro 76, disputando uma partida frente ao Chipre.
Já depois de envergar a camisola do Belenenses durante 23 anos, o início da temporada de 1977/78 traria a Godinho um novo emblema. À altura com 32 anos de idade, o atleta ainda não estava pronto para “pendurar as chuteiras”. Essa sua vontade levá-lo-ia a disputar os escalões secundários do nosso futebol. Assinaria contrato pelo Sacavenense e prolongaria o seu percurso por mais 4 anos.
Mesmo não tendo terminado a carreira no Restelo, Godinho nunca deixou de ser estimado por todos os adeptos e associados. Nutrindo, também ele, uma igual paixão, o antigo capitão do Belenenses acabaria por regressar ao clube. Em 2004 abraçaria de novo a “Cruz de Cristo”, desta feita nas funções de administrador da SAD.

763 - PAULO SOUSA

Ao terminar a sua formação no Canidelo, é na temporada de 1985/86 que Paulo Sousa é promovido aos seniores. Com a colectividade de Vila Nova de Gaia a jogar apenas nos “regionais”, o defesa, ainda assim, consegue despertar a atenção de um dos históricos do desporto nacional. A sua transferência para o Leixões, com o emblema a disputar a 2ª divisão, aconteceria na época seguinte. Já em Matosinhos, o atleta ajuda o clube na caminhada de regresso aos “grandes palcos”, conseguindo, com isso, a sua estreia no patamar máximo do nosso futebol.
No entanto, a temporada de 1988/89 não correria de feição ao lateral-direito. Colectivamente, o Leixões ficaria aquém dos seus objectivos e não conseguiria evitar a despromoção. Também no plano individual, tapado por outros colegas, Paulo Sousa não mereceria grande destaque. O atleta poucas vezes seria chamado a jogo e, contando apenas as rondas do Campeonato Nacional, não ultrapassaria a dezena de partidas.
Mesmo tendo em conta esse pequeno desaire, as suas qualidades continuavam a encantar. Já depois de uma curta passagem pelo Maia, o regresso à 1ª divisão dar-se-ia no começo da temporada de 1990/91. Com as cores do Boavista, e apesar de um começo discreto, Paulo Sousa acabaria por transformar-se num dos ícones do futebol português da década de 90. Não sendo um atleta exuberante, o defesa era conhecido pela segurança defensiva. Lutador e dono de uma resistência memorável, a solidez que oferecia ao sector mais recuado fariam dele um elemento muito importante.
Tanto com Manuel José, como com Jaime Pacheco, o lateral acabaria por ser um dos nomes indispensáveis no “onze” da “Pantera”. Essa constância exibicional mantê-lo-ia no Estádio do Bessa durante uma década. No decorrer desse período, o defesa daria um enorme contributo na ascensão do clube ao topo do futebol português. Tendo disputado 5 finais pelo Boavista, Paulo Sousa acabaria por ajudar a vencer 2 Taças de Portugal (1991/92; 1996/97) e 2 Supertaças (1992/93; 1997/98). Titular em todas essas vitórias, as duas últimas acabariam por ter um “gosto especial”. Envergando a braçadeira de “capitão”, seria dele a honra de erguer ambos os troféus.
Apesar de não contar com muitas convocatórias, Paulo Sousa também vestiria a “camisola das quinas”. Sendo chamado por Carlos Queiroz, o jogador acabaria por participar em 3 particulares. Holanda, Estados Unidos e República da Irlanda seriam as congéneres que, em 1992, desenhariam o seu trajecto na selecção portuguesa. Todavia, estas não seriam as únicas partidas internacionais na sua carreira. Também pelo Boavista, o seu percurso é bastante interessante. Tendo participado em várias campanhas, houve duas passagens pelas competições europeias que merecem ser relembradas. A primeira foi a edição de 1993/94 da Taça UEFA, onde o clube eliminaria a Lazio e atingiria os quartos-de-final. Por fim, há que fazer referência à estreia do emblema portuense na Liga dos Campeões. É verdade que os “Axadrezados” ficariam em último lugar no seu grupo. Ainda assim, não poderemos esquecer que o arranque do Boavista ficaria marcado por uma vitória frente ao Borussia Dortmund.
A época de 1999/00, a tal da estreia na “Champions”, marcaria uma fase de viragem na sua carreira. Começando a perder algum espaço na equipa boavisteira, Paulo Sousa decide mudar de rumo. É então que, no final da referida temporada, deixa o Bessa e opta por continuar o percurso profissional nas divisões inferiores. Prolongando a sua carreira para além dos 40 anos de idade, Paulo Sousa ainda representaria União de Lamas, Felgueiras, FC Avintes e S.Pedro da Cova.

762 - ÂNDERSON POLGA

Já depois de terminar a sua formação no Grêmio de Porto Alegre, a capacidade que já demonstrava levou a que sua integração na equipa principal fosse encarada com normalidade. Tendo sido promovido em 1999, a sua adaptação a uma realidade competitiva bem diferente ocorreria com normalidade. Logo à 2ª temporada, Polga começa a conquistar o seu lugar no “onze” titular. A partir desse momento, a regularidade com que começaria a ser utilizado faria dele uma das grandes promessas do emblema do Rio Grande do Sul.
Central elegante, Ânderson Polga nunca necessitou de ser agressivo para conseguir jogar com eficácia. Quem também faria uma avaliação positiva ao seu desempenho, seriam os responsáveis pela selecção brasileira. Com Luiz Felipe Scolari aos comandos do “Escrete”, o defesa acabaria incluído no grupo de atletas convocados a disputar o Mundial de 2002. No certame organizado entre o Japão e a Coreia do Sul, Polga seria chamado a disputar dois encontros da fase de grupos. Apesar de ter entrado apenas nessas duas partidas, a sua participação seria suficiente para que, no final do torneio, também ele fosse responsável pela 5ª vitória do Brasil em Campeonatos do Mundo.
É já com este título no seu currículo que, da Europa, começam a surgir interessados na sua contratação. Fala-se no Benfica, mas acaba por ser o Sporting a conseguir convencer o atleta. Em 2003, já depois de ter conquistado 2 estaduais gaúchos e 1 Copa do Brasil, Polga ruma a Portugal. A Alvalade chega como o 1º atleta campeão do mundo a jogar no nosso país. Tendo em conta esse estatuto, não foi surpreendente a sua imediata inclusão no “onze” inicial. Durante os anos que se seguiriam, tirando algumas excepções, o defesa seria presença habitual no centro da defesa leonina. Ainda que sem grandes vitórias, as suas exibições contribuiriam bastante para a conquista de alguns troféus. Com Paulo Bento como técnico principal, e com Ânderson Polga titular em todas as finais, o Sporting conseguiria levar de vencidas 2 Taças de Portugal (2006/07; 2007/08) e 2 Supertaças (2007/08; 2008/09).
Na sua estadia por Lisboa, terá faltado a conquista de um Campeonato. Infelizmente, não foi essa a única decepção na sua passagem pelo nosso país. Em 2004/05 viveria a pior desilusão desses anos de “Leão” ao peito. Tendo o conjunto leonino conseguido chegar ao derradeiro jogo da Taça UEFA, a esperança de uma conquista europeia era grande. Mesmo com a final a ser disputada no Estádio de Alvalade, o Sporting não conseguiria bater o CSKA de Moscovo. Para piorar o desgosto do atleta, José Peseiro deixá-lo-ia no banco, impedindo-o de disputar essa importante partida.
Dizem que depois de ter sido suplente nessa final, a sua relação com o treinador degradou-se. Com quem também nunca teve uma relação fácil, foi com os adeptos. Apesar de ter estado quase 9 épocas ao serviço do clube, e de ter chegado a envergar a braçadeira de capitão, Ânderson Polga nunca conseguiu reunir consenso entre a massa adepta. Umas vezes aplaudido, outras assobiado, a verdade é que o defesa marcou uma temporada no Sporting. Aquando da sua partida, o jogador confessaria a sua paixão pelo emblema “verde e branco” –"Na minha carreira só tive dois clubes, Grémio e Sporting. É uma mescla de sentimentos, uma emoção muito grande. Estou orgulhoso por ter jogado no Sporting e honrado pelo carinho do clube e dos adeptos”*.
O seu regresso ao Brasil, levá-lo-ia a dar o derradeiro passo da sua carreira. Num negócio curioso, Ânderson Polga acabaria por assinar pelo São José de Porto Alegre, para, logo de seguida, ser emprestado ao Corinthians. Com a equipa de São Paulo, nessa que seria a sua última temporada como profissional, o defesa faria parte do grupo que disputou e venceu o Mundial de Clubes de 2012.

 
*retirado do artigo de Mário Aleixo, em www.rtp.pt, publicado a 14/05/2012

761 - LIMA PEREIRA


Conta-se que, tendo ido observar outro atleta do Varzim, José Maria Pedroto acabaria por ficar impressionado com o desempenho de Lima Pereira. Curiosamente, o perfil do jogador nem era o do típico reforço de um “grande”. Já com 26 anos, sem ser um dos indiscutíveis da equipa poveira e com 2 temporadas apenas no nosso maior escalão, o interesse no central terá, por certo, surpreendido muita gente.
Ainda assim, a transferência do defesa acabaria por concretizar-se no Verão de 1978. Como esperado, à sua chegada às Antas o jogador teria algumas dificuldades em adaptar-se. Naquelas que foram as suas primeiras temporadas de “Azul e Branco”, Lima Pereira poucas oportunidades teria. Tapado pela dupla Simões e Freitas, dizia-se que Pedroto ainda andava a moldá-lo às responsabilidades de titular.
 A sua chance surgiria na temporada de 1980/81. Com a chegada do austríaco Hermann Stessl, o atleta começa a ganhar maior importância no escalonamento da equipa. Alto e esguio, era a sua assertividade que, no entanto, merecia maior destaque. Essa característica, ao longo do seu percurso profissional, seria muito louvada. Aliás, a objectividade do seu jogo acabaria por ser responsável pela sua importância no seio do plantel e base dos sucessos que estavam para vir.
Em 1983/84, o FC Porto chega à primeira final europeia. Em Basileia, os “Dragões” tinham pela frente uma Juventus com Boniek, Rossi e Platini e orientada por Trapattoni. Lima Pereira, numa dupla com Eurico, seria chamado ao “onze” inicial pelo técnico António Morais. No entanto, e apesar do bom desempenho da sua equipa, o atleta veria a Taça dos Vencedores das Taças fugir para Itália.
Ainda nesse ano, o defesa é convocado para disputar o Euro 84. Ele que, 3 anos antes, tinha feito a estreia pela selecção nacional, via naquele certame mais uma oportunidade para ganhar um troféu internacional. O pior é que a “Equipa das Quinas” cairia frente a congénere gaulesa. Contudo, e no contexto estritamente pessoal, o torneio correria de feição para o jogador. Chamado a disputar todos os encontros, Lima Pereira acabaria por ser um dos esteios da caminhada de Portugal até às meias-finais.
Seria já em 1987 que, finalmente, conseguiria a merecida consagração internacional. Com o FC Porto a disputar a Taça dos Campeões Europeus, o central chegaria a participar nas duas partidas das meias-finais. No entanto, uma lesão afastá-lo-ia da final jogada no Estádio do Prater, em Viena. Ainda assim, e apesar deste revés, os “Dragões” derrotariam o Bayern de Munique e Lima Pereira comemoraria a conquista da importante competição.
No ano seguinte chegariam mais vitórias. Desta feita com a Supertaça Europeia e Taça Intercontinental em questão, Lima Pereira conseguiria ser sempre titular. Mais uma vez, a equipa da “Invicta” não deixa fugir a oportunidade de engrossar o seu palmarés. Respectivamente, frente ao Ajax e ao Peñarol, os dois troféus seriam levantados pelos portistas.
Nisto de troféus, o percurso do central não se esgotou nas vitórias já acima referidas. Em termos de títulos, o jogador haveria de contar com: 4 Campeonatos (1978/79; 1984/85; 1985/86; 1987/88), 2 Taças de Portugal (1983/84; 1987/88) e 4 Supertaças (1981/82; 1983/84; 1984/85; 1985/86). Contudo, e tendo em conta toda a importância destas 13 conquistas, houve duas que tiveram uma particularidade especial. Tanto na Taça de Portugal de 1987/88, tal como na Supertaça de 1983/84, por razão de envergar a braçadeira de capitão, seria Lima Pereira a ter o privilégio de levantar os respectivos troféus.
Foi em 1989 que a sua ligação com o FC Porto chegou ao fim. À altura já com 37 anos, foram muitos os que vaticinaram o fim da sua carreira. Ainda assim, o futebolista achou que ainda não era sua hora e ao aceitar o convite do Maia, perlongaria a sua carreira por mais duas temporadas.

760 - ABREU

Formado nas escolas do Vitória de Guimarães, Abreu, desde muito cedo, confirmou as suas capacidades de jogador de futebol. Essas suas qualidades levá-lo-iam, ainda nas camadas jovens, a ser chamado aos trabalhos da selecção nacional. Ora, essa evolução faria com que Mário Wilson o chamasse à equipa principal. Desse modo, e apenas com 18 anos de idade, o centrocampista consegue estrear-se pelos seniores.
Mas se nessa temporada de 1972/73, Abreu seria apenas chamado para alguns jogos no final da época, já a campanha seguinte seria completamente diferente. Afirmando-se rapidamente, o médio ganha um lugar no “onze” vitoriano. Mesmo tendo em conta a tenra idade, a maturidade do seu futebol faz com que o “Velho Capitão” continue a apostar nele. Daí em diante, o seu nome passa a ser uma constante nas fichas de jogos. Abreu transforma-se num dos pilares das manobras vimaranenses e, com o avançar dos anos cimenta-se como um dos símbolos do clube.
Como é lógico, não foi a longevidade que fez dele um ídolo para os adeptos. Aliás, os 15 anos que passou ao serviço do emblema minhoto foram reflexo da sua paixão pelo Vitória de Guimarães. Em campo, Abreu mostrou sempre a sua faceta lutadora. Prova de que a sua atitude era um bom modelo para os outros colegas, passaria a envergar a braçadeira de capitão. Todavia, este não foi o único exemplo da sua entrega. Anos mais tarde, dizem que recusou uma transferência para um dos “grandes” de Portugal. Estando tudo acertado com o Benfica, uma última conversa com o Presidente Pimenta Machado fá-lo-ia repensar o seu futuro e a ficar na “Cidade Berço”.
Abreu pode ter perdido a oportunidade de lutar por metas maiores. Contudo, a sua carreira no Vitória de Guimarães também teria os seus momentos altos. Um deles foi a chegada à final da Taça de Portugal de 1975/76. É certo que os vitorianos acabariam por perder o derradeiro jogo para o Boavista (2-1). Ainda assim, Abreu conseguiria destacar-se na partida das meias-finais. Frente ao Sporting, o 1-1 no “placard” levaria o encontro para prolongamento. É então que o médio decide acabar com o empasse. Encetando uma cavalgada que ficaria na memória de todos os que assistiam, o médio atravessa metade do campo com a bola controlada. Ninguém o conseguiria parar e nem a presença de Vítor Damas na baliza contrária, evitaria seu o remate certeiro.
Foi também ao serviço do Vitória de Guimarães que Abreu foi chamado à principal selecção de Portugal. Tendo sido apenas convocado para “particulares”, essas partidas pelo conjunto “luso” aconteceriam todas no decorrer da temporada de 1981/82. Grécia, República Federal Alemã e Suíça, sempre em jogos forasteiros, seriam os desafios que dariam ao atleta as suas 3 internacionalizações “A”.
Ao seu percurso com o Vitória de Guimarães talvez tenham faltado as presenças nas provas europeias. Curiosamente, e tendo ajudado a atingir o 4º lugar de 1982/83, o jogador não participaria na Taça UEFA da época seguinte. Tendo entrado em choque com o técnico Hermann Stessl, o “capitão”, ainda no começo dessa “temporada internacional”, veria a sua ligação com o clube chegar ao fim. Transferido para o Portimonense, a sua presença tornar-se-ia importante para os melhores anos da história do emblema algarvio. Mais uma vez, contribuiria para uma “classificação europeia”, mas, tal como tinha acontecido anteriormente, a mudança para o Desportivo de Chaves afastá-lo-ia dessas competições.
A passagem por Trás-os-Montes representaria o fim da sua carreira. No final de 1985/86, Abreu afasta-se do mundo do desporto e, com apenas 32 anos, numa carreira que nunca saiu do escalão maior do nosso futebol, decide “pendurar as chuteiras”.

759 - SHÉU


Mesmo tendo idade de júnior, Shéu já jogava pelos seniores do Sport Lisboa e Beira. Começou como extremo-direito, mas a sua impetuosidade para avançar no campo, deixava-o, inúmeras vezes, refém do “offside”. Então, os responsáveis técnicos da equipa decidem recuá-lo no terreno de jogo. Apesar da novidade, as qualidades que possuía ajudá-lo-iam nessa adaptação. Shéu responderia da melhor maneira à pretensão dos seus treinadores e, daí em diante, passaria a jogar como médio.
A sua qualidade era tal que José Augusto veria nele um bom reforço para o Benfica – “Foi um jogador que nem estava na lista de jovens que fui avaliar, mas vi-o a jogar em Moçambique quando fui buscar uma autorização para o Nené. Vi logo ali que o Shéu tinha uma enorme margem de progressão. Não hesitei e fiz questão de trazê-lo logo comigo para Lisboa”*.
Pior foi convencer o seu pai. Certo que a vida académica era mais importante que uma hipotética carreira de desportista, a autorização para que pudesse seguir viagem com a comitiva benfiquista, foi muito difícil de conseguir. Shéu insistiu no pedido e comprometeu-se a concluir os estudos. Convencido da sinceridade do filho, a permissão lá foi concedida. Shéu cumpriria a sua promessa e, em paralelo com o futebol, concluiria o curso de Mecânica e Desenho Industrial.
Tendo chegado a Portugal em 1970, o jovem atleta seria integrado na equipa de juniores das “Águias”. Ainda nesse escalão, começou a ser chamado à equipa principal, tendo sido convocado para alguns encontros de cariz amigável – “Fomos a Espanha fazer um torneio, a Salamanca, que ganhámos, e julgo que foi na fase final da época. Como era norma naquela altura, não regressávamos naquele dia, só no seguinte. Então os jogadores decidiram que iam sair. Pediram autorização ao treinador, mas este disse que não. Acabámos por nos reunir já fora do hotel para ir embora. E eu, que tinha sido pela primeira vez convocado, e logo para uma equipa daquelas, não sabia o que fazer. Estava numa encruzilhada! Decidi, lentamente, ir ter com os jogadores que estavam à frente do hotel. Fui a passo, pé ante pé, e do meio do grupo oiço uma voz: «Ó miúdo, vai-te deitar!» E quem era essa pessoa? O Eusébio. Libertando-me assim daquela situação difícil, para quem chegava de novo. Senti-me protegido.”**.
A 15 de Outubro de 1972, numa visita ao campo do Barreirense, Shéu faz a estreia oficial pela equipa sénior. Aos 80 minutos de jogo, entrando para o lugar de Toni, o médio dava início a uma caminhada que apenas terminaria em 1989. Logicamente, e apesar de reconhecidas as suas capacidades, as oportunidades que teria durante esses primeiros anos seriam escassas. Só na temporada de 1975/76, com a chegada de Mário Wilson aos comandos da equipa, é que o seu paradigma começou a alterar-se.
 A verdade é que a partir desse momento, o atleta conquistaria um lugar no “onze” do Benfica. Como titular absoluto, e conseguindo manter essa importância, Shéu tornar-se-ia num dos principais pêndulos da equipa. Sem nunca ser muito exuberante, era ele o jogador que tornava possíveis os necessários equilíbrios tácticos. Esse seu papel contribuiria muito para que o Benfica conseguisse conquistar um sem número de títulos. 9 Campeonatos, 6 Taças de Portugal e 2 Supertaças fazem parte do seu currículo.
Em termos internacionais, o seu percurso não é, de todo, vergonhoso. Apesar de nunca ter conseguido vencer uma competição europeia, o centrocampista pode gabar-se de ter marcado presença em duas finais. Na primeira, a final da Taça UEFA de 1982/83, o Benfica seria derrotado pelo Anderlecht. Ainda assim, nesse duplo embate com a equipa belga (1-0; 1-1), o golo conseguido na 2ª mão seria da sua autoria. Já em 1988, com Shéu a envergar a braçadeira de capitão, os “Encarnados” seriam derrotados no derradeiro jogo da Taça dos Campeões Europeus, desta feita, frente aos holandeses do PSV Eindhoven.
No que à selecção diz respeito, o seu percurso é algo curioso. Tendo em conta as diversas chamadas à equipa nacional (24) e ao seu estatuto de grande médio, é surpreendente que nunca tenha sido chamado a disputar a fase final de uma grande competição. É certo que durante o seu percurso de futebolista, Portugal raramente conseguiu qualificar-se para esse tipo de certames. As excepções seriam o Euro 84 e o Mundial de 1986. Ora, a ausência no torneio disputado no México, até pode ser justificada pela entrada na derradeira fase da sua carreira. Já para França, numa altura em que ainda estava na posse de todas as suas capacidades físico-tácticas, o seu afastamento é difícil de entender.
Em 1989, como já foi referido, Shéu decide pôr um fim ao seu percurso nos relvados. No entanto, a sua ligação ao Benfica manter-se-ia. Tendo concordado com a proposta do Presidente João Santos, o médio passaria a ocupar um lugar na estrutura directiva. Com excepção feita a duas aparições como treinador (1998/99 – treinador interino; 2007/08 – treinador-adjunto), o antigo jogador tem, desde então, cumprido as funções de Coordenador Técnico da “Águias”.

 
*retirado de “www.record.pt”, edição de 29/03/2014
**retirado de “www.relato.pt, “post” de 03/12/2016

758 - CÂNDIDO de OLIVEIRA

Tendo ficado órfão ainda em tenra idade, Cândido de Oliveira entra para a Casa Pia. Na secular instituição, destacando-se no “jogo da bola”, aprimora o seu gosto pelo desporto. Na sequência dessa paixão, já em 1914, ingressa no Benfica. Parte integrante da equipa de futebol, o avançado chega a praticar atletismo e luta greco-romana. No entanto, é nos “campos” que merece os maiores louvores. Ajuda o clube a vencer os Campeonatos de Lisboa de 1915/16 e 1916/17 e a Taça de Honra de 1919/20.
Sendo um confesso benfiquista, chegando a herdar a braçadeira de Cosme Damião, Cândido de Oliveira tinha outro sonho. O desejo de criar um clube com antigos casapianos, levá-lo-ia a deixar as “Águias”. Em 1920 funda os “Gansos” e, logo na temporada de estreia, o grupo consegue vencer o “regional” lisboeta. Poucos meses depois, a 18 de Dezembro de 1921, dá-se outro momento alto na sua carreira. Para disputar aquele que seria o desafio de estreia da selecção “lusa”, Portugal desloca-se a Madrid. Frente à Espanha, num “onze” que contaria com 4 atletas do Casa Pia Atlético Clube, a escolha para “capitão” recairia na sua pessoa.
Apesar de contar apenas com 1 internacionalização, Cândido de Oliveira haveria de transformar-se numa das maiores figuras do futebol português. Entre outros papéis, o de treinador foi o que mais contribuiu para esse estatuto. Tendo passado grande parte desse percurso ao serviço da selecção, foi ele que comandou a primeira participação da “Equipa das Quinas” num certame internacional. Em Amesterdão, nos Jogos Olímpicos de 1928, o conjunto “luso” cairia nos quartos-de-final. Ainda que longe das medalhas, a participação de Portugal deixaria os adeptos muito orgulhosos. À chegada ao nosso país, milhares de pessoas esperariam pela comitiva e o técnico haveria de ser um dos mais ovacionados.
Nas referidas funções, Cândido de Oliveira também passaria por Belenenses, FC Porto, Académica e, como o primeiro treinador português no Brasil, pelo Flamengo. No entanto, seria ao serviço do Sporting que conseguiria os seus maiores feitos. Numa altura em que imperavam os “Cinco Violinos”, a sua estreia coincidiria com a vitória na Taça de Portugal de 1945/46. Contudo, o seu título mais famoso seria o Nacional de 1948/49. Num Campeonato que estava muito disputado, a deslocação à “casa” do Benfica revelava-se de importância fulcral. Nas vésperas dessa jornada, disputada no Campo de Jogos das Amoreiras, da direcção leonina surge a acusação que o treinador estaria a congeminar a vitória dos rivais. A verdade é que o jogo terminaria com a vitória do Sporting, por 1-4. No rescaldo da partida, e ainda nos balneários, o técnico apresenta a demissão. Passados uns dias, o dirigente que o acusou bate à porta de sua casa. Apresenta as desculpas e informa-o da sua própria renúncia. Então, pede-lhe para repensar a sua decisão. Cândido de Oliveira concorda, mas com uma condição. Também o dirigente teria de voltar atrás. Assim aconteceu e, depois das pazes feitas, regressariam os dois ao Sporting.
Muito para além do percurso feito nos campos de futebol, também fora deles a sua vida mereceu grande destaque. Com um carácter marcadamente bondoso, ficou conhecido por ajudar muita gente. Um bom exemplo aconteceria aquando do convite para orientar o Belenenses. Chamado a substituir Artur José Pereira, afastado por motivos de doença, Cândido de Oliveira abdicaria do seu pagamento. Exigiu, então, que o salário revertesse a favor do antigo treinador e fundador do clube.
Outra história curiosa prende-se com o seu envolvimento na 2ª Guerra Mundial. Tendo uma posição privilegiada dentro dos CTT, onde era funcionário desde os 19 anos, os Serviços Secretos Britânicos acabariam por pedir a sua colaboração. Na eminência que estava uma invasão alemã a Portugal, os ingleses, sem dar conhecimento ao Estado Português, incumbem-no de montar uma rede de comunicações e resistência. A PVDE (precursora da PIDE) acabaria por descobrir tais planos e Cândido de Oliveira seria preso. Diz-se que António Roquete, antigo futebolista internacional, velho protegido do treinador e, por essa altura, agente da “Polícia Política”, teria tido grande peso na sua detenção e posterior espancamento.
Traído por alguém que tinha como próximo, acabaria deportado para o campo de concentração do Tarrafal. Já com o desfecho da contenda a pender, cada vez mais, para os “Aliados”, Salazar dá instruções para a sua libertação. O Estado Novo concede-lhe o perdão. Oferecem-lhe também nova integração nos Correios, a qual recusaria. É então que, neste cenário, tem uma ideia que mudaria o cenário do desporto em Portugal. Tendo sido um dos pioneiros do jornalismo desportivo português, colaborando em publicações como “O Século”, “Stadium” ou “Diário de Notícias”, decide criar um novo periódico. A 2 de Janeiro de 1945, tendo a seu lado Ribeiro dos Reis e Vicente Melo, funda o jornal “A Bola”.

CAPITÃES, parte II

Passados que estão 5 anos sobre a primeira vez que aqui trouxemos o tema, eis que decidimos fazer uma sequela!
Abril será sempre o mês dos capitães e, por essa razão, vamos dedicar estes 30 dias àqueles que, nos clubes portugueses, envergaram a mítica braçadeira.

757 - MELO

Com grande parte da sua formação feita no Benfica, o jovem guardião chegaria à equipa principal numa altura em que já andava a ser procurado um substituto para o mítico Costa Pereira. Nessa sucessão, para fazer frente aos concorrentes Pedro Benje e Nascimento, João Melo tinha a seu favor as habituais presenças nas selecções jovens de Portugal. Pela equipa nacional já tinha sido chamado ao Torneio Internacional de Juniores da UEFA. Nessa edição de 1961, disputada no nosso país, não conseguiria mais do que ser o suplente de Rui. No entanto, já no ano seguinte, Melo seria o titular da baliza lusa. É certo que o conjunto português não conseguiria repetir a vitória na competição. Já o atleta acabaria eleito como o melhor guarda-redes do certame.
Voltando à temporada de 1964/65, a da sua promoção à categoria principal, poucas seriam as oportunidades para Melo poder jogar. Elek Schwartz chamá-lo-ia pela primeira vez para um jogo da Taça de Portugal, frente ao Atlético. Já no Campeonato, a sua estreia ficaria adiada até à última jornada. Tendo entrado ao intervalo, essa partida frente ao Vitória de Guimarães dar-lhe-ia o direito a figurar na lista de atletas campeões nacionais.
Esse mesmo título voltaria a aparecer no seu currículo em 1966/67. Todavia, aquela que, para si, seria a temporada mais frutífera, acabaria por acontecer entre as duas conquistas já referidas. Em 1965/66 Melo perfilava-se como o natural protector das redes “encarnadas”. À 4ª ronda, depois de uma derrota (2-0) no Estádio das Antas, Bela Guttmann aponta-o para substituir Costa Pereira. Melo manter-se-ia no lugar durante as 6 jornadas seguintes. Só que, a meio dessa caminhada, o Benfica sofre novo desaire. Em mais um clássico, desta feita frente ao Sporting, o conjunto da Luz volta a perder (2-4). Os 4 golos sofridos, todos concretizados por Lourenço, levantariam um coro de protestos contra a escolha de Melo para o alinhamento inicial. No rescaldo do desafio, o técnico húngaro, durante mais alguns jogos, ainda consegue segurá-lo no “onze”. Ainda assim, o destino do jovem futebolista parecia traçado e poucas mais chances teria.
Já depois de, no Verão de 1967, ter chegado ao fim a sua ligação com as “Águias”, Melo segue para Norte e ingressa no Salgueiros. Na 2ª divisão dá novo impulso à carreira e desperta a atenção daquele que, durante o seu trajecto profissional, viria a ser o emblema mais representativo. Na Académica, dividas em duas fases, o guardião passaria 7 temporadas. Como um dos principais esteios da equipa, Melo ajudaria a “Briosa” a boas classificações. Já depois de no Benfica ter feito a estreia nas provas europeias, também pelo conjunto de Coimbra ajudaria à qualificação para as competições internacionais.
Após cumprir a primeira passagem pelos “Estudantes”, Melo começa um périplo que o leva a envergar a camisola de diversos clubes. Excepção feita à temporada passada no Famalicão (1978/79), o dito período seria feito nos escalões secundários. Também o final da sua carreira seria caracterizado pela errância. Tendo “pendurado as luvas” somente em meados da década de 80, a sua longa carreira terminaria ao serviço do Viseu e Benfica.

756 - OVERATH

Apesar de reconhecido pela sua carreira ao serviço do FC Köln, foi no SSV Siegburg 04 que Wolfgang Overath fez toda a sua formação. Ainda a jogar pelo emblema da sua terra natal, o médio seria chamado às jovens selecções da Alemanha Ocidental e, nesses escalões, começaria a competir nos principais certames futebolísticos. Nessa condição, já em 1961, o atleta marcaria presença em Portugal. Pela equipa germânica disputaria o Torneio Internacional de Juniores da UEFA e ajudaria à conquista do 3º lugar do pódio.
Foi em 1962 que mudou de emblema. Estrela em ascensão, esse seu estatuto era grande demais para o manter em tão modesta colectividade. A transferência para um emblema de outra monta estava iminente e a equipa que conseguiria atrair o jovem jogador, talvez pelo título nacional recentemente conquistado, acabaria por ser o FC Köln.
Apesar de ser tido como uma grande promessa, a sua estreia na principal categoria dos “Die Geißböcke” apenas aconteceria no ano a seguir à sua chegada. Logo no começo dessa época de 1963/64, Overath, dando continuidade a um longo percurso, também receberia a sua primeira internacionalização pela selecção “A”. Aliás, não seria apenas a partida frente à Turquia que marcaria essa sua temporada. No final da mesma, o FC Köln sagrar-se-ia vencedor da recém-criada “Bundesliga”. Para o centrocampista, o troféu representaria mais um momento de glória na sua carreira.
Com as cores do clube, Overath preencheria o seu currículo com mais 2 Taças da Alemanha. No entanto, seria com a camisola da “Mannschaft” que o médio viveria os melhores momentos como profissional. A convocatória para a edição de 1966, seria o primeiro dos 3 Campeonatos do Mundo em que participaria. Em Inglaterra jogaria a final, perdida para a equipa da casa. Já no México, quatro anos passados, marcaria o golo que daria o 3º lugar ao seu país. Finalmente, e a jogar no seu país, Overath seria um dos esteios do meio campo alemão. Mais uma vez, marcaria presença na derradeira partida do torneio. No entanto, e ao invés da primeira final, a Alemanha venceria a famosa “Laranja Mecânica” (Holanda) e sagrar-se-ia campeã do Mundo.
Ainda assim, e apesar deste trajecto aparentemente imaculado, Overath haveria de sofrer um grande desgosto. Estando lesionado, acabaria por ficar de fora da convocatória para a fase final do Euro 72. Este forçado afastamento, faria com que o médio não pudesse inscrever o seu nome na equipa que ergueria o almejado troféu.
Já sua ligação com o FC Köln manter-se-ia ininterrupta até ao fim do seu percurso como futebolista. Em 2004, já depois de em 1977 ter pendurado as chuteiras, Wolfgang Overath regressa à linha da frente do emblema da Renânia do Norte-Vestefália. Desta feita longe dos relvados, o antigo internacional candidata-se à Presidência do clube. Vence as eleições e mantem-se no cargo até Novembro de 2011.

755 - RUI

Com o percurso na formação dividido entre GD Mealhada, Belenenses e FC Porto, foi a chegada às Antas que impulsionaria a sua carreira. Ainda como júnior dos “Dragões”, o guarda-redes começou a ser chamado às camadas jovens da selecção nacional. Nesse contexto, seria convocado a disputar o Torneio Internacional de Juniores da UEFA, em 1960. A “Equipa das Quinas” ficaria em 3º lugar. Contudo, esse primeiro passo serviria de empurrão para o que viria a acontecer no ano seguinte. Com o certame a ser organizado por Portugal, e com Rui como titular absoluto, os jovens “lusos” conseguiriam a proeza de vencer o título europeu.
Tal vitória, levá-lo-ia a conquistar um lugar no plantel principal “Azul e Branco”. Apesar do merecido destaque, a concorrência para a posição de guarda-redes era enorme. Por altura da sua promoção, em 1961/62, o dono da baliza portista era Américo. Logicamente, as oportunidades para o jovem Rui Teixeira não seriam muitas. Ainda assim, já por altura da sua 4ª temporada como sénior, Otto Glória começa a apostar nele. Infelizmente, o risco assumido pelo treinador brasileiro não teria continuidade. Com a saída do técnico para o Sporting, Rui regressa à condição de suplente.
Com o seu estatuto a manter-se inalterado, surgem os rumores da sua partida para o Benfica. Tal transferência acabaria por nunca acontecer e Rui continuaria a ser presença habitual no banco do FC Porto. Nova excepção aconteceria já passados alguns anos. Com o começo da década de 70, o guardião parece, finalmente, conquistar o seu lugar. Entre as épocas de 1970/71 e 1972/73, é o seu nome que mais vezes aparece na ficha de jogo.
Como se um estigma fosse, Rui, desta feita em favor de Tibi, volta a ser preterido. Epítetos como os de “Eterno Suplente”, começam a sublinhar aquilo que seria a sua carreira. A preferência que sempre deu aos “Azuis e Brancos”, faria com que o seu percurso profissional fosse mais discreto do que inicialmente era profetizado. Essa sua devoção pelo clube, que ficaria materializada em 18 temporadas de “Dragão” ao peito, torná-lo-iam num dos históricos do emblema portuense.
Também participaria naquela que foi a mudança de paradigma do FC Porto. Já com José Maria Pedroto como técnico, os troféus começaram a preencher o percurso do atleta. Rui, que já tinha no seu currículo 2 Taças de Portugal (1967/68; 1976/77), ainda faria parte do grupo que, em 1979, comemoraria a conquista do bi-campeonato. Aliás, essa seria a sua derradeira temporada como futebolista. No entanto, a sua proximidade ao clube manter-se-ia. Recentemente, voltou a fazer parte das equipas técnicas do FC Porto, estando, esta temporada (2016/17), a trabalhar com as camadas jovens e com a equipa “b”.

754 - FRANCIS LEE

Durante grande parte da adolescência, dividiria a sua paixão pelo desporto entre o futebol e o cricket. Com o avançar dos anos, preferiu a bola maior e dedicou-se a uma carreira que viria a revelar-se de grande sucesso.
Ainda nos tempos do Bolton Wanderers, o seu primeiro clube profissional, Francis Lee vê-se integrado na comitiva inglesa que, em Portugal, jogaria o Torneio Internacional de Juniores da UEFA. Após o certame, disputado na Primavera de 1961, o jovem atacante regressa ao emblema da Grande Manchester. Estando o clube no escalão maior do futebol britânico, Lee encontrava-se no melhor contexto para o evoluir das suas habilidades. No entanto, o Bolton, que por norma lutava pela manutenção, acabaria mesmo por descer de patamar.
 Arrastado na despromoção, o avançado acabaria afastado dos grandes palcos. Ainda assim, o seu futebol continuava a surpreender. Não sendo um típico ponta-de-lança, o seu jogo, mais movimentado, levava-o a conduzir muitas das avançadas. Na verdade, era com a bola nos pés que Francis Lee conseguia destacar-se. Essa sua característica haveria de impressionar os responsáveis de outro histórico das ligas inglesas. O Manchester City acabaria por resgatá-lo do 2º escalão e, a troco daquela que seria a transferência recorde para o clube, o atleta estava de volta às grandes disputas.
Curiosamente, logo no ano de estreia pelos “Cityzens” (1967/68), o clube vence o primeiro campeonato desde o fim da 2ª Guerra Mundial. Esse facto, como que catapultaria Francis Lee para os títulos. Logo na temporada seguinte, o seu percurso fica mais rico com as conquistas do “Charity Shield” e “FA Cup”. A vitória na Taça de Inglaterra dá ao conjunto a qualificação para a Taça dos Vencedores das Taças. Na edição de 1969/70 o Manchester City, já depois de eliminar a Académica de Coimbra nos quartos-de-final, chega ao derradeiro encontro da competição. Na final, frente aos polacos do Górnik Zabrze, Francis Lee marca um dos golos e ajuda o seu clube a conquistar o troféu.
Esse ano de 1970 haveria de tornar-se especial. Já depois do sucesso nas competições europeias, o seu nome faria parte do conjunto que, orientado pelo mítico Alf Ramsey, estaria presente no Mundial de 1970. Francis Lee, que pela principal selecção inglesa tinha feito a estreia em Dezembro de 1968, era, por essa altura, um dos nomes mais importantes na equipa nacional. No Campeonato do Mundo disputado no México, a Inglaterra, que defendia o título, acabaria por não conseguir passar dos quartos-de-final.  Ainda assim, o estatuto de Francis Lee não sairia beliscado e continuaria a representar o seu país durantes os anos vindouros.
No limiar do seu percurso profissional, e já depois de conseguir sagrar-se o melhor marcador da Liga (1971/72), Francis Lee muda-se para o Derby County. Nos “The Rams”, no ano da sua chegada, volta a vencer a “First Division”. A glória prolongar-se-ia por mais um ano e, no final da temporada de 1975/76, o avançado decide pôr um ponto final na sua carreira.
A despedida dos relvados não o afastaria do desporto. Em 1977 tem nova passagem pelos campos de cricket e, anos mais tarde, entra no mundo das corridas de cavalos. No entanto, o seu regresso ao futebol causaria ainda maior sensação. Em meados da década de 90, com o dinheiro e prática acumulados no negócio do papel higiénico, Francis Lee compra parte do Manchester City. Torna-se Presidente do clube. Contudo, a experiência não correria de feição e, após acumular alguns desaires desportivos, o antigo futebolista decide deixar a sua posição na direcção.

753 - PERES

Nascido entre adeptos do Belenenses, seria no emblema da “Cruz de Cristo” que Fernando Peres faria toda a formação. Em 1961, já com os 18 anos feitos, é chamado a disputar o Torneio Internacional de Juniores da UEFA. Tendo jogado 3 partidas, inclusive a da final, o jovem atleta ajudaria Portugal a conquistar o seu primeiro troféu de selecções.
Este feito também ajudaria a sua afirmação no Belenenses. Passadas algumas semanas sobre o certame organizado no nosso país, o extremo-esquerdo seria chamado pelo argentino Enrique Vega, à categoria principal. Com os do Restelo, Fernando Peres começaria a ganhar a fama de futebolista habilidoso. Com uma boa visão de jogo e excelente em termos técnicos, a ajuda que dava à sua equipa era muito importante. Já depois da chegada de Fernando Vaz ao comando dos “Azuis”, a sua relevância cresceria. Tanto a nível nacional, como nas provas europeias, Peres tornar-se-ia numa das maiores estrelas do conjunto lisboeta.
Após a sua estreia pela principal selecção portuguesa, o “namoro” com os “grandes” começa a aumentar de tom. É então que chega a altura de deixar o Restelo, em direcção a outro emblema da capital. Já no Sporting, na temporada de 1965/66, a sua chegada coincidiria com mais um título para os “Leões”. Nessa conquista do Campeonato Nacional, Fernando Peres acabaria por ser fulcral. Ainda que contratado nessa época, as suas capacidades levá-lo-iam, de imediato, a conquistar um lugar no “onze”. A titularidade faria com que a sua cotação aumentasse ainda mais e, mesmo sem ter participado na qualificação, o seleccionador Manuel da Luz Afonso chamá-lo-ia a disputar o Mundial de 1966.
Sem nunca ter jogado no torneio disputado em Inglaterra, Fernando Peres teceria duras críticas aos responsáveis da selecção. Aliás, sendo dono de uma personalidade bem vincada, polémicas como esta suceder-se-iam durante o seu percurso desportivo. Passados alguns anos após o referido incidente, o jogador ver-se-ia envolvido noutra controvérsia. Desta feita, com a ligação ao Sporting prestes a terminar, o atleta exige uma melhoria no contrato. Recusadas as suas pretensões, os dirigentes do Sporting valem-se da infame “Lei da Opção”. A tal regra ditava que, independentemente da vontade do atleta em renovar, o clube podia impedi-lo de jogar com outra camisola. Poucos teriam outra escolha, mas Peres, que não tinha abandonado os estudos, acabaria por encontrar uma solução. Servindo-se da Lei Estudantil, que permitia aos jogadores- estudantes irem para a Académica, Peres muda-se para Coimbra.
Um ano com as cores da “Briosa” seriam suficientes para fazer “estalar o verniz”. Acusando os dirigentes do clube de não cumprirem o contrato assinado, Peres força a saída. A separação empurra o atleta, novamente, na direcção de Lisboa e do “verde e branco”. Tendo o Sporting contratado Fernando Vaz, aquele que foi o seu treinador predilecto acabaria por ajudar ao seu regresso. Mais uma vez, a sua chegada a Alvalade traz um Campeonato Nacional. Já na época seguinte, é vez de conquistar a sua primeira Taça de Portugal. Essa edição de 1970/71 ficaria ainda marcada pela goleada recorde na prova, onde, nos 21-0 frente ao Mindelense, Peres marcaria 7 golos.
Após ter jogado a Mini-Copa de 1972, torneio organizado pelo Brasil para comemorar os 150 anos da independência, mais uma polémica emergiria. Copiando o episódio passado uns anos antes, a direcção do Sporting recusa, nos termos que este pedia, renovar o seu contrato. Tendo sido ameaçado que se não assinasse nova ligação, não teria permissão para jogar em mais lado nenhum, Fernando Peres prefere a segunda opção. Impedido de prosseguir a carreira, o internacional “luso” viaja até ao Canadá, onde joga futebol de salão. Depois dessa experiência, volta a Portugal e, no Peniche, dá os primeiros passos como treinador.
Com o 25 de Abril de 1974 a “Lei de Opção” é posta de parte. Esta medida faria com que Fernando Peres decidisse voltar à competição. Desta feita vai até à América do Sul e, ao serviço do Vasco da Gama, torna-se no primeiro e, até aos dias de hoje, no único atleta português a sagar-se campeão nacional naquele país.
No Brasil ainda representaria mais dois clubes. Já depois de uma curta passagem pelo FC Porto, o atleta volta a atravessar o Atlântico. Queria, na verdade, voltar ao emblema da “Cruz de Malta”, mas o presidente do Vasco da Gama, decepcionado pela sua recusa em prolongar aquele que tinha sido o seu primeiro contrato, negar-lhe-ia essa pretensão. Acaba por vestir as cores do Sport Recife e, nos 3 anos que aí passou, ajudaria o emblema a conquistar o “estadual” de Pernambuco.
Após, ainda no Brasil, ter terminado a sua carreira ao serviço do Treze de Campina Grande, Peres decide voltar às tarefas de treinador. Nessas funções teria um percurso discreto, destacando-se as suas passagens pela 1ª divisão, à frente dos destinos de União de Leiria e Vitória de Guimarães.

752 - JOHN JACKSON

Mesmo pertencendo às escolas dos Crystal Palace, clube que, no começo dos anos 60, militava nos patamares inferiores do futebol profissional inglês, John Jackson chamaria a si muita atenção. Com qualidades inegáveis, onde o jogo aéreo era uma das suas melhores características, o atleta começaria a ser chamado para as selecções jovens do seu país.
É nessa condição que, em 1961, disputaria o Torneio Internacional de Juniores da UEFA. Depois de participar no certame organizado em Portugal, o guardião volta às tarefas no seu clube. Com o emblema londrino, já depois de ter atingido a idade sénior, a sua afirmação ainda demoraria alguns anos. Só a partir da temporada de 1964/65, com a partida de Bill Glazier, é que começaram a surgir as primeiras oportunidades.
Não tardou muito que, daí em diante, John Jackson passasse a ser o dono das balizas do Crystal Palace. A consistência das suas exibições era tal que, durante 222 partidas consecutivas, o seu nome estaria sempre presente na ficha de jogo. Como titular indiscutível, o guardião haveria de estar na base da chegada do clube ao patamar máximo do futebol inglês.
Sendo a promoção ao segundo escalão referente à época de 1963/64, seria no Verão de 1968 que, pela primeira vez, o clube do Sul de Londres começaria uma temporada a disputar a “First Division”. Nos palcos maiores do desporto britânico, os “Eagles” manter-se-iam até ao final de 1972/73. Orientado pelo nosso conhecido Malcolm Allison, o Crystal Palace seria despromovido. Com a descida de divisão, muitos dos atletas deixariam o clube e John Jackson seria um dos que procuraria nova morada.
Curiosamente, a sua mudança para o Leyton Orient também o afastaria da “First Division”. A esse escalão só voltaria muitos anos depois e ao serviço do Ipswich Town. Com tudo isso, e já na segunda metade dos anos 70, a sua carreira levá-lo-ia a atravessar o oceano. Do outro lado do Atlântico, numa altura em que muitos jogadores europeus iam atrás dos dólares da “North American Soccer League”, John Jackson também apostaria nessa aventura.
St. Louis Stars e California Surf foram os emblemas que, nos Estados Unidos da América, fariam o percurso do guarda-redes. Já o seu regresso a Inglaterra levá-lo-ia ao Millwall. No entanto, seria o seu, já aqui referido, ingresso no Ipswich Town que o levaria, mais uma vez, a merecer grandes elogios. Em 1981/82, com o clube de Suffolk a disputar os lugares cimeiros da tabela classificativa, John Jackson seria chamado para defender as redes frente ao Manchester United. Essa única presença em campo, transformar-se-ia numa exibição memorável. Com um incrível rol de defesas, o jogador conseguiria manter o placard em 2-1. Jackson seria o principal obreiro da difícil vitória e, para além de uma ovação de pé, mereceria rasgados elogios do treinador Bobby Robson.
Já depois de, ao serviço do Hereford United, ter deixado os relvados, John Jackson ainda voltaria ao “jogo da bola”. Como técnico de guarda-redes, treinaria os atletas do Brighton & Hove Albion e da Sussex FA School of Excellence. Extra desporto, o antigo atleta também assumiria funções na área do golf. Apaixonado por este desporto, trabalharia para a imprensa afecta à modalidade e na venda de material e equipamentos.

751 - CARRIÇO

Manuel Luís dos Santos, conhecido no mundo do futebol como Carriço, é um dos históricos jogadores do Vitória Futebol Clube. Tendo, no início dos anos 60, aparecido na categoria principal do emblema setubalense, seria também por essa altura que o jovem atleta participaria no primeiro grande êxito das selecções portuguesas. Escolhido por David Sequerra e orientado por José Maria Pedroto, Carriço marcaria presença em todos os jogos de Portugal no Torneio Internacional de Juniores de 1961. Como um dos indiscutíveis do “onze” luso, o jogador tornar-se-ia num dos pêndulos do grupo e extremamente importante na conquista do referido troféu.
Não foi só com as cores de Portugal que Carriço fez parte de uma excelsa geração. Ao lado de nomes como os de José Maria, Conceição, Jaime Graça ou Jacinto João o jogador ajudaria a construir uma das épocas áureas do Vitória de Setúbal. Podendo jogar a meio-campo, como em tarefas mais defensivas, era nas laterais que melhor desenvolvia o seu futebol. Tendo conseguido manter-se, ao longo da década de 60 e início da de 70, como um dos atletas mais utilizados no plantel sadino, o seu contributo para o sucesso do grupo seria decisivo.
Durante esse período, e sob a batuta de Fernando Vaz, o Vitória de Setúbal conseguiria a faceta de, por 4 vezes consecutivas, atingir o derradeiro jogo da Taça de Portugal. Desse rol de finais, do qual o clube sairia vitorioso por 2 vezes (1964/65; 1966/67), Carriço participaria em 3. Também no contexto das provas europeias, o seu currículo está bem preenchido. Resultado das boas campanhas conseguidas no Campeonato Nacional, as presenças na Taça das Cidades com Feira e, mais tarde, na Taça UEFA tornar-se-iam habituais. Durante essas campanhas, algumas das grandes potências do futebol cairiam a seus pés. Fiorentina, Inter de Milão, Leeds United, Olympique Lyonnais, Anderlecht ou Liverpool são alguns do clubes que claudicariam frente ao emblema da Foz do Sado.
Já a sua relação com a Selecção “A”, tendo em conta o valor que sempre mostrou em campo, acabaria por não ser tão estreita quanto o merecido. A estreia a 4 de Junho de 1969, num particular frente ao México, seria apenas o primeiro de 3 jogos feitos por Portugal. Essas internacionalizações acabariam por não reflectir o real valor da sua carreira. É certo que, durante o seu percurso como profissional, também Benfica e Sporting eram compostos por grupos de grandes jogadores. Ainda assim, e tendo sido essa a principal razão pela dificuldade em afirmar-se, fica-me a sensação que Carriço mereceria mais da “camisola das quinas”.

750 - SEPP MAIER

Amigo de infância de Franz Beckenbauer, diz-se que, certo dia, foi desafiado pelo antigo defesa para ir jogar à bola. Queria participar na partida como avançado, mas a falta de habilidade levaria os seus companheiros a fazer uma nova sugestão. Aceitou o convite e, daí em diante, passaria a ocupar um lugar à baliza!
Em que medida esta história é verdadeira, provavelmente nunca o saberemos. O que é certo é que Sepp Maier, que residia na área suburbana de Munique, terá entrado para o Bayern ainda em idade juvenil. Sendo um fervoroso adepto do clube bávaro, o guardião completaria aí a sua formação. Todavia, o emblema alemão, que hoje reconhecemos como um dos melhores do mundo, era, por essa altura, um clube sem grande palmarés. Ainda assim, Maier mostrava grande valor. A qualidade que patenteava, levá-lo-ia a ser chamado às selecções jovens da República Federal Alemã. Seria pela equipa do seu país que o guarda-redes, em 1961, participaria no Torneio Internacional de Juniores da UEFA. Em Portugal, a jovem “Mannschaft”, ao bater a Espanha por 2-1, ficaria no 3º lugar. Melhor que o “bronze” alcançado, as prestações de Meier seriam muito elogiadas e testemunho inicial de uma carreira extraordinária.
Foi também no início dos anos 60 que Sepp Maier chegou à categoria principal do Bayern Munique. Curiosamente, seria com a presença do guarda-redes e, alguns anos mais tarde, com a promoção Beckenbauer que o espírito do clube começou a mudar. A partir da segunda metade dessa década, o pragmatismo em que o grupo até aí vivia altera-se. A conquista da Taça da Alemanha e as boas prestações nas competições europeias, serviriam de preâmbulo às vitórias na Liga germânica. Por fim, e a forma de coroar essa época dourada, chegaria o triunfo na Taça dos Campeões Europeus.
A todos esses brilharetes, nos quais estão incluídos 4 “DFB-Pokal”, 4 “Bundesliga”, 1 Taça dos Vencedores das Taças, 1 Taça Intercontinental e 3 Taça dos Campeões Europeus, é impossível subtrair a importância de Sepp Maier. O jogador que, entre 1967 e 1979, não falharia um único jogo para a Liga, tornar-se-ia num dos pilares dessa hegemonia. Também pela selecção, o seu percurso coincidiria com importantes conquistas. Tendo sido convocado para diferentes Mundiais e Europeus, seriam as edições do Euro 72 e do Campeonato do Mundo de 1974 que mais peso teriam no seu percurso profissional. As vitórias nos referidos certames serviriam para aclamar toda uma geração de futebolistas e, de igual modo, para certificar Maier como um dos melhores de sempre na sua posição.
Apesar de ser conhecido pela sua competência e profissionalismo inabalável, o atleta também tinha outras facetas. Tido como um dos mais corajosos dentro de campo, fora dele o carácter de Maier era igualmente estimado. Diz-se ser um homem muito alegre e que raramente perdia uma oportunidade para fazer umas partidas aos colegas. Um bom exemplo, terá acontecido na preparação para o Mundial de 1978. Antes da partida para a Argentina, durante uma conferência de imprensa realizada no Brasil, alguém terá perguntado ao avançado Klaus Fischer qualquer coisa parecida com: “Como é que um futebolista tão mau pode jogar pela Alemanha?!”. O atleta, visivelmente irritado, procura saber quem é o autor de tal desfaçatez. É então que, por entre grandes gargalhadas, Maier revela o disfarce que tinha permitido infiltrar-se como jornalista.
Outro episódio passado com o guarda-redes, também afere muito da sua personalidade. Na 1ª mão da Taça Intercontinental de 1976, estava a nevar muito. Apercebendo-se que o colega do Cruzeiro de Belo Horizonte não vinha preparado para aquelas condições, Maier tem um gesto de enorme bem-querer. A Raul Plassmann oferece um par das suas luvas, pois as que ele trazia seriam menos apropriadas para um bom desempenho naquele clima.
A sua carreira acabaria por ter um fim abrupto. Resultado de um acidente de viação, as mazelas sofridas pelo jogador levá-lo-iam, prematuramente, a deixar a defesa das balizas. Afastando-se do futebol, ao cobro de alguns anos o antigo internacional regressaria à modalidade. Começando pelo Bayern de Munique e, mais tarde, em simultâneo na selecção alemã, Maier aceitaria o cargo de treinador de guarda-redes. No desempenho dessas funções, passariam pelas suas mãos muitos dos futuros craques germânicos. Jogadores como Oliver Khan, Jens Lehmann ou Andreas Köpke muito têm a agradecer os ensinamentos daquele que ficaria conhecido como “Die Katze”.

749 - SERAFIM

A maneira como, aos diferentes patamares, chegava mais cedo do que a maioria dos praticantes da modalidade, torná-lo-ia numa das grandes apostas do FC Porto. Nesse seu evoluir, também as convocatórias para as jovens selecções portuguesas seriam importantes. Com a “camisola das quinas”, Serafim seria chamado a disputar o Torneio Internacional de Juniores de 1960. A boa prestação de Portugal no certame organizado pela Áustria, levaria à conquista do último lugar do pódio. Essa 3ª posição reflectia bem o crescimento do futebol “luso” e seria o prenúncio para o que estava prestes a acontecer.
No ano seguinte, a UEFA entrega a organização do Torneio Internacional de Juniores a Portugal. Serafim, que já jogava pela equipa principal do FC Porto, veria o seu nome surgir na lista dos atletas convocados. Já com a disputa do troféu a decorrer, o jovem futebolista confirma tudo o que dele se dizia. Nos 3 primeiros jogos, consegue 5 tentos. Todavia, é na final que merece o maior destaque. Frente à Polónia, o avançado marca todos os golos da partida. Com o “placard” a assinalar 4-0, Serafim torna-se num dos grandes obreiros da primeira vitória de Portugal no contexto internacional.
Também pelo FC Porto, Serafim fazia por merecer os maiores louvores. Tendo, a 11 de Dezembro de 1960, conseguido estrear-se na equipa principal, esse jogo no Estádio da Luz faria dele o mais jovem de sempre a envergar a camisola dos “Dragões”. A partir desse momento, o avançado torna-se num dos elementos mais importantes da manobra “Azul e Branca”. Mantem a titularidade e na disputa da Taça de Portugal torna-se preponderante. Com dois golos marcados nas meias-finais da prova, ajuda a eliminar o Sporting e empurra o seu clube para a final de 1960/61.
Mesmo com o FC Porto afastado dos títulos, as exibições de Serafim não passavam despercebidas. Veloz, possante e dono de um grande remate, cada desafio que disputava tornava-se mais evidente a sua aptidão atacante. A primeira recompensa viria com a chamada à Selecção “A”. A 6 de Maio de 1962, num particular frente ao Brasil, o jogador faria a sua estreia com as cores de Portugal. Depois, viriam mais 3 internacionalizações e, no final da temporada de 1962/63, o interesse do Benfica.
Numa altura em que as “Águias” eram uma das maiores sensações europeias, a mudança para o Estádio da “Luz” era algo de irrecusável. Tal era o poderio do emblema lisboeta, e tal era a qualidade de Serafim, que a transferência do jogador tornar-se-ia na mais cara de sempre do futebol português. Contudo, no plantel do Benfica moravam jogadores de gabarito mundial. Nomes como o de Eusébio, Santana, José Torres ou Iaúca tornariam a sua passagem pelo clube num caminho muito sinuoso. Ainda assim, seria no novo emblema que ganharia os seus primeiros troféus. Logo no ano da sua chegada, o Benfica faz a “dobradinha”. No cômputo das provas disputadas, incluindo as competições europeias, o jogador conseguira um saldo de 24 partidas e 13 golos. Na final da Taça de Portugal marcaria aos 71 minutos, ajudando o Benfica a derrotar o FC Porto por 6-2.
Mesmo tendo conseguido conquistar mais um Campeonato Nacional (1964/65), a falta de oportunidades levariam Serafim a mudar de emblema. Ao fim de 3 temporadas em Lisboa, o atleta decide mudar-se para Coimbra. Na “Cidade dos Estudantes” Serafim recuperaria o protagonismo de anos anteriores. A Académica tornar-se-ia no clube mais representativo da sua carreira e, durante essas 7 campanhas, o avançado faria parte daqueles que foram os melhores anos da história do clube. Logo na época da sua chegada (1966/67), a “Briosa” ficaria no 2º lugar do Campeonato e atingiria o derradeiro jogo daquela que é a nossa “Prova Rainha”. Para o jogador, o prémio viria com a sua 5ª e derradeira partida pela Selecção Nacional. Já no decorrer dos anos seguintes, Serafim disputaria mais uma final da Taça de Portugal (1968/69), famosa pelo protesto estudantil. No que diz respeito às competições europeias, durante a época de 1969/70, ajudaria o clube atingiria os quartos-de-final da Taça dos Vencedores das Taças.

TORNEIO INTERNACIONAL DE JUNIORES DA UEFA 1961

Consequência da vitória no Euro 2016, os recursos da selecção começam a estar apontados à estreia da equipa nacional na Taça das Confederações. Mas qual foi o primeiro grande triunfo de Portugal? Ora, é para relembrar esse grande feito que, durante o mês de Março, falaremos do “Torneio Internacional de Juniores da UEFA 1961”.

748 - JOÃO de OLIVEIRA

Sem que muita informação esteja disponível sobre o antigo jogador, há, no entanto, um episódio que, estando João de Oliveira envolvido, ficou na história do futebol português.
Para a temporada de 1929/30, numa altura em que o Benfica, por ordem de mais uma grave crise, há muito andava afastado dos títulos, as prestações no Campeonato de Lisboa renovavam as esperanças de jogadores e adeptos do clube. Apesar de terem perdido os embates com o Sporting, as duas vitórias frente ao Belenenses faziam com que as “Águias” ainda estivessem na corrida pelo título “alfacinha”. É então que, a 9 de Março de 1930, o sonho começa a desabar. Para a 12ª jornada, o Benfica visitava o Casa Pia. Com 18 minutos decorridos, já a equipa da casa conseguia adiantar-se no marcador. Os “Encarnados” ainda empatam o jogo. No entanto, alguns lances polémicos precipitam a partida para um desfecho pouco pacífico. Primeiro, há o golo mal anulado aos visitantes; depois, o choque entre dois adversários. É nisto que João de Oliveira acode o seu colega, envolvendo-se numa cena de pancadaria com o futebolista casapiano. A desordem rapidamente toma maiores proporções. Dentro e fora de campo, a polícia é chamada a intervir e, no meio de tamanha confusão, João de Oliveira agride o árbitro.
Pelo meio de uma série de diferentes castigos, a punição do atleta benfiquista é exemplar. Os 8 meses de suspensão fazem com que os protestos subam de tom. As diferentes manifestações e a ameaça de abandono de todas as competições surtem algum efeito. Sem que, no desfecho do “regional” de Lisboa, consigam alguma coisa alterar, os benfiquistas vêem a pena de João de Oliveira beneficiar de uma amnistia. O perdão faria com que o jogador ainda pudesse disputar o Campeonato de Portugal. Ironicamente, o regresso do atleta aconteceria frente ao Casa Pia. O encontro, a 2ª mão dos oitavos-de-final da prova, acabaria empatado. Ainda assim, o Benfica venceria a eliminatória e a presença de João de Oliveira seria um grande trunfo na caminhada do clube até à final da competição.
Após a vitória no referido Campeonato de Portugal, que marcaria o seu primeiro título, a carreira do jogador sofre um pequeno empurrão. A preponderância que João de Oliveira tinha no meio-campo benfiquista haveria de reflectir-se nas convocatórias para a Selecção Nacional. Por Portugal, numa altura em que os jogos internacionais escasseavam, um “amigável” frente à Itália, serviria para o atleta fazer a estreia com as cores do país. No Campo do Ameal, a 12 de Abril de 1931, a “Equipa das Quinas” perderia por 0-2. Mesmo assim, e apesar da derrota, o jogo embelezaria o currículo de João de Oliveira que, a partir daí, passava a envergar o estatuto de internacional.
O final dessa época acabaria por dar novo troféu ao Benfica. Com João de Oliveira em plano de destaque, o clube alcança, mais uma vez, a final do Campeonato de Portugal. Desta feita frente ao FC Porto, o clube lisboeta consegue mais uma vitória. O atleta benfiquista acabaria a temporada em plano de destaque, tendo sido o futebolista que, ao lado do seu colega Pedro Ferreira, mais partidas disputaria no cômputo das diferentes provas de 1930/31.